Tuesday, May 15, 2012

Eu, Gênia incompreendida, Rainha da Cultura Inútil

O Rei dos Gênios Incompreendidos

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Também não é pra tanto (no que concerne ao reinado da Inutilidade). Tem muito mais gente muito mais competente do que eu nesse ramo, da dita "cultura inútil" - (construçãozinha meio complicada essa, porque nenhuma expressão cultural é inútil, mas enfim, o senso comum faz mais ou menos o trabalho de expressar o que eu queria dizer). Aliás, fazem quase 20 dias que eu tinha decidido escrever no meu blog em inglês porquê, porquê, porquê? Porque a moça do tarot deu a dica. E, só pra constar, o trabalho que ela tinha me dito que era certeza que rolaria talvez até role, mas não pela forma que ela disse que aconteceria. Ó, meu deus, leram o tarot pra mim, eu acreditei e não acertaram nada. Tem que ser muito musa da cultura inútil pra cair nessa. E mais: eu ainda leio tarot. 
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E quando eu digo que tem gente muito mais competente do que eu nesse ramo, não é irônico, não é dizer que existe alguém mais desocupado do que eu; é através de um sincero ato de humildade que reconheço que não tenho lá grandes habilidades analíticas, humorísticas, filosóficas, teatrais, ou qualquer coisa que pudesse me fazer ganhar dinheiro com o barato. Porque seria bacana, né? Tipo aquelas histórias daqueles negos de 13 anos que não queriam estudar, não queriam fazer "nada da vida", mas sempre foram aficionados por vídeo game e aos 16 anos são contratados por alguma companhia monstruosa de informática, com salários ainda mais monstruosos. Ou então, só pra dar nome aos bois, a fantástica história da Gillian Lynne, a coreógrafa do musical Cats, que quando criança todo mundo achava ela meio perturbadinha, meio dispersa demais, até que a mãe dela sacou a coisa, que ela adorava música, e adorava dançar e... tirou ela da escola pra ir fazer aula de dança, ué. E deu certo.
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E por dar certo, eu nem falo exclusivamente de salários astronômicos, eu falo de fazer alguma coisa que dê assim, um puta tesão. Porque assim, nada contra, do fundo do meu coração, mas não dá um puta tesão trabalhar de garçonete, de babá, de faxineira, whatever, por mais que tudo isso seja bacana também, não, não dá um puta tesão. E tem gente que nem se importa com tesão, e gente inteligente, gente fina e elegante e tal. Beleza. Sorte dessa galera. Sorte mesmo. Eu não tenho a mesma sorte.
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Eu gosto de escrever, mas quem disse que eu sirvo pra isso? Tô longe de ser um Saramago e, sinceramente, pra ser um Paulo Coelho, eu dispenso. Não que eu não goste dos livros do Paulo Coelho (vide o título do post, depois da segunda vírgula), porque eu gostei bastante dos que eu li. O cara tem umas idéias bem legais. Ele só escreve muito, muito mal, e eu não falo de gramática. Até porque não tem coisa mais chata do que gente que não suporta um "a nível de", um gerundismo desnecessário. E eu não sou chata, eu sou legal pra caramba. O Jô Soares fala "a nível de" e escreve super bem, ué, qual o drama? Quando que a orelha de alguém caiu ao escutar: "eu vou estar te enviando um email"? O importante da linguagem é comunicar e vice e versa, o resto é patifaria classe média chata. O importante da literatura é ser instigante, interessante, envolvente, o resto é puro recalque. E o Paulo Coelho não tem nada disso. As histórias são legais, mas o texto é chato, pedante, sacal. Eu tenho uma teoria: Paul Rabbit só faz tanto sucesso mundo afora porque os tradutores dele devem ser muito bons, e devem pegar uma história legal mas com um texto medíocre e transformá-la num texto legal e interessante. Mais ou menos o inverso do que os tradutores do Sidney Sheldon fizeram com a obra do cara no Brasil. Sidney Sheldon é muito legal, mas isso eu só fui descobrir depois de o ler em inglês. Eu sou uma péssima tradutora, mas, sinceramente, eu poderia ter traduzido os livros dele 200 vezes melhor do que foi feito. 
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E, ainda sobre o Paul, (Rabbit), eu acredito sinceramente que ele não têm o menor tesão pelo que ele faz. A coisa é só pelo dinheiro. Daí não dá. Quer dizer, até dá, mas não fica legal. Uma das características de uma pessoa inútil é um certo grau elevado de exigência, sabem? Pelo menos no meu caso. Se eu tenho todo o tempo livre do mundo, ainda mais quando eu tenho mas não deveria ter, eu vou escolher muito bem como matar o tempo. Até pra esconder a culpa de não fazer o que eu deveria estar fazendo. 
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Ideologias a parte, dinheiro continua sendo legal. E continua fazendo falta, aliás. Daí nessas horas eu me sinto uma espécie de "gênio incompreendido", como se a qualquer momento eu fosse ter aquela epifania que mudasse o mundo - a nível de cultura inútil, claro. Aliás, quando eu falo em "epifania", eu sempre lembro da Clarice Lispector, A hora da estrela, porque acho que devo ter aprendido a palavra na mesma aula lá no meu colégio classe média. Outro dia me senti a própria Macabéa, ao quase ter sido atropelada por um Mercedes! (Em Paris, olha que chique!), só que não. Era uma BMW. 
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Entender de carros faz parte de cultura inútil? Se faz, eu tô fora, eu só conheço Fusca (porque eu adoro, seria o único carro que eu teria se eu não detestasse carros e adorasse minha vida de pedestre), Astra (porque um ex me chamou de interesseira só porque ele tinha um, e eu fiquei tão surtada com a história que cheguei até a sonhar que tinha comprado um Astra no cartão de crédito, que o cartão tinha passado, mas que eu não ia ter dinheiro pra pagar depois a fatura, e estava desesperada - interpretar sonhos super faz parte da cultura inútil!), e o... putz, esqueci o nome desse. Honda Civic, talvez? Era um que um ex tinha também (eu tinha esse péssimo hábito de circular entre a classe média babaca paulistana), e eu aprendi a reconhecer porque toda vez que via o carro chegando, meu coraçãozinho fraco saltava à boca de felicidade. Mas esqueci o nome do carro, a cara do carro, se eu visse acho que não lembraria. E pronto. É tudo o que eu conheço de carros.
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O que me parece super bacana, porque eu não contribuo muito para, por assim dizer, um mundo melhor, e minha aversão a carros faz com que, sei lá, o planeta seja um lugar melhor? Não sei bem. Mesmo se eu gostasse de carros, nunca teria dinheiro pra comprar um. Como é que as pessoas compram carros, aliás? Eu SEMPRE me perguntei isso, mas quando eu tinha sei lá, uns 15 anos, eu achava que eu era muito jovem pra entender, e que um dia tudo faria sentido. Ainda não faz. Eu não faço a menor idéia de como alguém abre a carteira e de repente tira de lá 50 mil reais. Essas pessoas não comem, não fumam, não pagam aluguel, não pagam luz, internet, moram na rua? Gente, não dá pra abrir a carteira e tirar de lá 50 mil reais. Não dá. Mas mesmo que eu tivesse dinheiro, eu não compraria. Compraria sei lá, um barco. Porque mesmo que os barcos também sejam danosos ao meio ambiente, eu não como frutos do mar, taí, minha compensação. 
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Porque eu acredito muito na teoria da compensação, no equilíbrio universal. Existem cotas pra tudo, pra felicidade, pra tristeza, pra sexo, pra dinheiro, pra paciência, pra elegância. O mundo justo seria todo mundo com a mesma cota, mas não, não é assim que funciona: se fazem 30 dias que você está numa puta depressão, pode ter certeza que tem alguém no mundo feliz da vida há um mês. 
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E, no embalo dos meus 30 dias, eu fui ver o meu futuro no tarot. Saí de lá achando que eu seria a próxima revelação da internet, que era só começar a escrever em inglês. Gente, eu sou muito influenciável, ainda mais se tratando de elogios a minha pessoa. Me elogia que eu acredito. Mas ah, escrever em inglês é tão chato! E nem é porque em inglês eu não consigo me expressar tão bem quanto em português, porque né, nem em português eu sou assim, um Guimarães Rosa. Até Diário de Bridget Jones é 50 vezes mais legal que o Chez Patrix.
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Foi mais porque me caiu a ficha. Não pega bem sair dizendo por aí que eu sou uma inútil sem tesão pela vida, especialmente em um idioma que o mundo inteiro entende. Agora, quem fala português? Quem fala português na França? Ok, muita gente, mas com certeza ninguém que vai me contratar. Ok, até pode ser, mas também, eu não mandei currículo pra ser a acessora do Hollande. Eu nem sabia quem era o Hollande (o novo presidente da França), ficava olhando as manchetes do Le Monde quando passava em frente a uma banca de jornal, lendo o nome do nego toda hora, e me perguntando: "gente, o que é que tá pegando entre a França e a Holanda?". 
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Além do que não é bem verdade que eu sou uma inútil que não tem tesão pela vida. Eu tenho, até demais, esse sempre foi o meu problema, parte indelével do meu complexo de gênio incompreendido. Mas aos 6 anos de idade, a tia Rita da escola tinha escrito no caderninho de comunicação com a mamãe: "A Patrícia é uma criança brilhante, mas muito dispersa". Olha, mandou bem, viu. 
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Porque eu nunca fui boa de verdade em nada. Porque eu nunca me preocupei em ser também; é que nem cigarro, se eu quisesse parar, eu pararia. Se eu quisesse ter sido a melhor aluna do curso de história da Unicamp, eu teria sido. Não porque eu seja fodona, mas porque qualquer um pode ser o melhor de qualquer coisa, é só uma questão de foco. E até digo mais: se eu quisesse ter ficado rica, eu teria ficado. (Mas essa história vai fazer parte só da minha auto-biografia comemorativa do meu octagésimo aniversário, a ser lançada no dia 10 de novembro de 2062, aguardem!). E nem é que eu acredito naquele blablabla horroroso de que quando um quer uma coisa, mas quer de verdade, ele consegue. Quer dizer, eu acredito em termos.
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Eu tenho uma teoria. Quando alguém quer uma coisa, de verdade, ele consegue. Mas assim, esse "querer" não é uma escolha consciente, ou não totalmente. A gente não escolhe, quero dizer. E não é que a gente nasce com esse "querer" tampouco; esse "querer" vai sendo desenhado, desde a infância, por nós mesmos, por tudo aquilo em que vamos nos transformando. E então, meu bem, esquece. Não adianta você querer até morrer ser rico se o que você quer de verdade, se o que você se importa de verdade, são outras coisas, que não trabalhar ou sei lá, casar com alguém rico. Não vai acontecer. E mesmo que acabe acontecendo, vai ser uma merda, porque esse não vai ser você, não vai ser aquele desenho que você foi fazendo desde que nasceu. Não vai colar, nem pra você. 
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Tem que se auto-conhecer, tem que fazer TERAPIA, que nem aquela gente linda que diz que "ai, todo mundo deveria fazer terapia, pra se auto-conhecer. Se eu faço? Não, eu não faço não, mas eu até gostaria, quem sabe um dia, né?". Não, não é todo mundo que precisa fazer terapia. Essa gente linda aí, por exemplo, na maior parte das vezes, não precisa mesmo. Quem precisa fazer terapia é gente maluca, gente que não junta o tico e o teco, gente que não sabe viver, porque ó, meu deus, tudo é muito difícil. Coisa bem classe média mesmo. Eu faço. E morro de inveja de quem não precisa, de quem dá conta do recado, de quem sabe viver, mesmo sabendo que ninguém tem uma vida perfeita, mas que tem gente que sabe rebolar, ah, isso tem. Eu não sei. 
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Eu tenho várias teorias. Mas, estranhamente, minha vida continua um caos. Tem mesmo que fazer escolhas? Desde a roupa que eu vou sair pela manhã, passando pela música que vou ouvir durante o almoço, ou até mesmo a decisão de almoçar ou não... não pode comer só quando tem fome? Mas infelizmente, a gente não quer só comida, já diriam os Titãs e os budistas também, esses sapequinhas que vira e mexe pululam por aí dizendo que o sofrimento vem do desejo, e uma forma de sofrer menos é desejando menos coisas. Ah tá, agora ficou bem fácil, viu? Eu não troco a minha coca-cola normal ou o meu vinho francês (de 3 euros, 10 euros se for caso de comemoração) por chazinho nenhum. E, não me entendam mal, eu não sou mais feliz por isso, e morro de inveja das pessoas felizes. 
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Até porque eu não sei andar de bicicleta. Eu sei o que é uma bicicleta, eu vejo bicicletas na rua todos os dias, acho lindo, super poético, adoraria saber andar de bicicleta, ir trabalhar de bicicleta, ir pro cinema de bicicleta, eu faria tudo de bicicleta se eu soubesse andar de bicicleta. E eu sei também, por pura observação, que existem bicicletas e bicicletas; existem bicicletas pra subir a montanha, existem bicicletas pra andar pela cidade. Há bicicletas de criança, de mulher, de homem, de adulto, antigas ou modernas, caras ou baratas, roxas ou brancas ou pretas ou amarelas, com cestinhos, com sininho, com motor e sem motor. Eu vejo as pessoas andando de bicicleta, e quando eu as observo, eu entendo a coisa, entendo mais ou menos. Porque bicicleta não é nenhum instrumento mágico como sei lá, um computador, que eu e boa parte da população mundial não faz idéia de como funcione assim, nos detalhes, assim como a gente sabia direitinho como uma máquina de escrever funcionava só de usar uma. A modernidade tem essa coisa mágica, de coisas que simplesmente funcionam, e a gente nem sabe como, aquela coisa abstratíssima da eletricidade passando pelos fios, e da internet, meudeus, é muita abstração. Mas bicicleta não tem isso. Bicicleta é simples. A gente vê alguém andando de bicicleta, até mesmo eu que não sei como faz, eu vejo e entendo como funciona.
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Eu vejo, eu entendo, mas não sei fazer. 
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A vida pra mim é uma bicicleta.